Instituto de Pesquisas Projeciológicas e Bioenergéticas

429 – A OBSESSORA DO SILVA

No começo foi aquele anúncio mínimo no jornal, exatas onze palavras:

“Precisamos projetores, com prática, que desejem faturar dinheiro extra, fone tal”. Como andava na maior dureza, liguei para lá, oferecendo-me, mesmo sem botar muita fé.

A pessoa que atendeu já foi logo dizendo:

“Olhe, amigo, não se trata de projetores de cinema, não, tá? Estamos
procurando projetores de outro tipo… Astrais, ok?”

“Bom, é desse tipo mesmo que eu sou”, eu disse.

Marcaram uma hora para mim, deram-me o endereço e eu fui.

Lá fui apresentado ao entrevistador, que me explicou: “É o seguinte: estamos desenvolvendo um serviço de desobsessão bastante inovador, no qual o cliente obsediado nos contrata via Internet e nós enviamos agentes astrais para eliminar os encostos. A coisa funciona assim: damos ao senhor o nome de um cliente, o senhor vai lá, espanta o obsediador, e quando o cliente nos informa que está livre do carrego, nós lhe pagamos 100 reais. Interessa?”

Cocei a cabeça e perguntei: “Bom, e se o cara simplesmente não avisar vocês?”

“Bem, aí você volta lá e bota o obsessor de novo…”

“E aí não ganho nada?”

“Claro que não… Você é pago pra tirar obsessores, não pra colocar… certo?”

“É, me parece razoável… Quando eu começo?” E ele respondeu: “Calma… tem um pequeno teste. Diga aí, há quanto tempo o senhor se projeta?”

“Bem, na minha idade, tudo que eu faço já faço há muito tempo…”

“Certo… E tem boa orientação, lá no astral?”

“Acho que sim, outro dia tive a intenção de me projetar para o Japão e cheguei até o bairro da Liberdade, aqui em São Paulo. Como o senhor sabe, o que não falta por lá é japonês…”

“Ok. E qual é sua postura acerca da Cosmoética?” *

“O que é Cosmoética?”

“Ótimo… aprovado. Aqui está a foto do cliente e o endereço. O resto é com você…”

“Espera aí”, comecei a dizer, “o endereço é no Rio de Janeiro…”

Mas vendo o olhar desconfiado que meu novo patrão me lançara, apressei-me a emendar:

“Se bem que distâncias não sejam nenhum problema para projetores
experientes…”

À noite, em vez de meditar sobre gravuras devocionais, fiquei mirando a foto digitalizada do Seu Silva, meu cliente. Era feio pra burro… Para ajudar na localização, adormeci cantarolando mentalmente “Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil…”

O que eu via agora, sob a opaca luz astral, era um apartamento de cobertura, de duvidosa mas caríssima decoração. Numa cama redonda, que se refletia no espelho do teto, dormia o Silva, mais feio ainda do que na foto, roncando feito um cão.

Perto dele, uma mulher que já fora bela, evidentemente desencarnada agora, olhava o relógio de pulso, impaciente para entrar em ação… Pronto… Eu havia conseguido chegar e já achara a obsessora… A grana estava no papo… Lembrando das técnicas aprendidas numa lista virtual de projeção astral, estendi as mãos e comecei a emanar uma luz rosa para cima da mulher, enquanto repetia “Xô, sai desse corpo que não te pertence, volta pro teu lugar…”

A moça nada. Mandei luz azul, verde, depois laranja… Ela nem tchuns. Uma certa hora ela voltou-se pra mim e disse:

“Ô amigo, será que o senhor não sabe que esse negócio de jogar luz funciona é com assediador? Assediadores são vampiros energéticos. Eu sou uma obsessora… O senhor não sabe a diferença? Não lê sobre esses assuntos?”

“Bem, confesso que eu prefiro mais é escrever… Mas quer dizer que não adianta, é? E a senhorita com certeza não vai me dizer o que é que funciona com obsessores, né?”

“Meu amigo, nada funciona contra obsessores, pois eles são parte integrante do próprio obsediado. Somos dívidas cármicas que os outros esqueceram de pagar. Aliás, o Silva é o maior caloteiro que eu conheço”.

Não gostei muito de ouvir aquilo, mas ela continuou, com tristeza nos olhos: “Ah, se o senhor soubesse todo o mal que ele me fez… Não estou aqui por que quero, são coisas cármicas que têm que se cumprir”

E começou a desfiar sua história, de como o Silva havia prejudicado tanto a vida dela, explorando-a e expondo-a a todo tipo de agruras e acabando por deixá-la à morte, num hospital para indigentes.

A estas alturas eu, que normalmente sou um cara durão, já estava à beira das paralágrimas…

“Oh, não fique assim”, disse ela. “De qualquer forma, esta é minha última noite como obsessora, amanhã vou ser substituída por um obsessor encarnado – um fiscal da receita federal…”

Penalizado, só queria fazer alguma coisa para ajudá-la, e assim eu lhe disse:

“Olha, não posso fazer muito por você, mas posso poupá-la de sua tarefa de hoje… Pode ir, deixe que eu mesmo cuido do Silva, esta noite…”

Surpresa, ela hesitou por um momento. Depois sorriu, agradecida, e começou a se desvanecer, até sumir. Então ficamos lá, o Silva ainda roncando, e eu.

Bom, a viagem não dera em nada, a grana da desobsessão e o meu novo emprego já tinham ido pro brejo e, para piorar, eu estava muito zangado com o Silva. Só havia uma coisa a fazer, para salvar a noite. Sem pressa, comecei a materializar um longo tridente.

– Bene –
São Paulo, 05 de maio de 2003.

* Cosmoética: Código de Ética Cósmica, Paraética, Ética espiritual, Ética Superior.


Texto <429><16/05/2003>