606 – O DIVINO – UMA CERTEZA CONCRETA
Comecei a escrever sobre a dúvida, mas mesmo ao fazê-lo, sinto-me assaltado pela “dúvida” se qualquer quantidade de escritos ou de outra coisa poderá algum dia persuadir a eterna dúvida no homem, que é a penalidade de sua ignorância natural. Em primeiro lugar, escrever adequadamente, significaria algo de 60 a 600 páginas, mas nem mesmo 6.000 páginas convincentes convenceriam a dúvida. Porque a dúvida existe por si mesma; sua verdadeira função é duvidar sempre e, mesmo quando convencida, continuar ainda duvidando. É apenas para persuadir aquele que a alimenta a lhe dar casa e comida que ela pretende ser uma honesta pesquisadora da verdade. Esta é uma lição que aprendi com a experiência, tanto de minha própria mente como a dos outros; o único meio de se livrar da dúvida é tomar a discriminação como o próprio detector da verdade e falsidade e, sob sua guarda, abrir a porta livre e corajosamente à experiência.
Quanto à permanência, você não pode esperar, desde o começo, permanência de experiências espirituais iniciais somente uns poucos as têm e mesmo para eles a alta intensidade não está sempre presente; para a maioria, a experiência vem e se retira para detrás do véu, esperando que a parte humana esteja preparada e pronta para suportar e reter seu crescimento e sua subseqüente permanência. Porém, duvidar dela por essa razão seria irracional ao extremo. Não se duvida da existência do ar porque um vento forte não está sempre soprando ou da luz do sol porque a noite intervém sobre a aurora e o crepúsculo. A dificuldade reside na consciência humana normal para a qual a experiência espiritual vem como algo anormal e é de fato supranormal. Esta débil normalidade limitada, a princípio, acha até mesmo difícil conseguir algum toque desta experiência supranormal maior e mais intensa; ou ela a consegue diluída em seu próprio estofo embotado da experiência mental ou vital, e quando a experiência espiritual vem realmente, em seu próprio poder esmagador, muitas vezes ela não a pode suportar ou quando o consegue, não a pode conservar e guardar. Contudo, se uma brecha tiver sido feita nas paredes construídas pela mente contra o Infinito, a brecha se alarga, às vezes vagarosamente, às vezes rapidamente, até não existir mais parede alguma e se estabelecer a permanência.
(Texto extraído do inspirado livro “Sabedoria de Sry Aurobindo” – Editora Shakti.)
– Nota de Wagner Borges: Sry Aurobindo (Índia, 1872-1950) foi um dos maiores mestres da Índia. O seu trabalho tornou-se conhecido como “O Yoga Integral”, porque, como ele dizia, “Toda vida é Yoga”. Para mais detalhes sobre os seus escritos inspirados, ver o excelente livro “Sabedoria de Sry Aurobindo” – Editora Shakti.´
Texto <606><09/05/2005>
