QUAL É A DE DEUS?
Deus, causa primária de todas as coisas… Assim Kardec nos coloca Deus… Parece bem simples e óbvio, não? Mas será que é mesmo? Vejamos…
– causa – aquilo que provoca, que causa, que faz existir, que faz acontecer, que cria, razão, motivo, origem.
– primária – primeira, que não tem precedentes ou antecessores, que vem antes de tudo.
– todas as coisas – tudo, a totalidade das coisas, animais e pessoas.
Se veio antes de tudo e é a causa de tudo, não tem causa própria, não foi criado, não foi provocado, nem teve origem ou começo, sempre existiu. Simples? Óbvio?
Tentando ser mais claro e incapaz de definir Deus diretamente, Kardec nos fala dos seus atributos, dizendo que Ele é eterno, infinito, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom… Também parece óbvio… Será? Vejamos…
– atributo – aquilo que é próprio de um ser, característica, qualidade.
– eterno – que não tem princípio, nem fim; que sempre existiu e sempre existirá; constante, incessante, permanente.
– infinito – que não tem fim, termo ou limite; inumerável, incalculável, incontável, imensurável.
– imutável – que não está sujeito a mudanças, que não muda, que é sempre igual.
– imaterial – aquilo que não tem a natureza da matéria, não material, impalpável, intangível.
– único – que é só um; de cuja espécie não existe outro; exclusivo; a que nada é comparável.
– onipotente – que pode tudo; que tem poder absoluto; todo-poderoso.
– soberanamente – com poder ou autoridade suprema, sem restrição nem neutralização; de forma suprema, absoluta.
– justo – conforme a justiça, a eqüidade, a razão; imparcial, reto; íntegro; exato, preciso; legítimo, fundado.
– bom – que tem todas as qualidades adequadas à sua natureza ou função; benévolo, bondoso, benigno; misericordioso, caritativo.
Mas será que só por estes atributos conseguimos saber quem ou o que é Deus? Não seriam estes atributos demasiadamente humanos para definirmos Deus em sua
totalidade?
Na tentativa de entender Deus, o homem sempre acabou por racionalizá-lo e com Kardec não foi diferente. Deus, ou o que quer que entendamos como criador do universo, é algo que escapa à nossa compreensão, que está acima de tudo o que possamos entender sobre nós próprios e sobre tudo o que existe.
Alguns, querendo torná-Lo mais próximo, passaram a entendê-Lo como estando em tudo e como sendo tudo, ou como se toda a criação estivesse Nele. Outros, modificando um pouco esta interpretação, atribuíram a todos os seres a condição de deuses. E, mesmo assim, ainda não nos foi possível compreender Deus, ou mesmo chegar mais perto Dele.
É que Deus não precisa ser entendido, ou encontrado, ou capturado. Ele nem sequer precisa ser pensado. Afinal, também o pensamento foi criado por Ele… Ele simplesmente é. E sendo, Ele existe em nosso pensamento, em nosso entendimento, independentemente da nossa vontade ou do nosso consentimento. Tudo o que somos foi criado por Ele. Absolutamente tudo.
Livre-arbítrio? Bem, deixe-me dizer-lhe uma coisa… O libre-arbítrio também foi inventado por Deus, para dar-nos a impressão de que podemos comandar a nossa própria vida. Mas não se engane! As regras que comandam o livre-arbítrio também foram criadas por Deus… Desse modo, aquilo que escolhemos, ou pensamos que escolhemos, segundo nosso livre-arbítrio, obedece a regras criadas por Deus. Assim, dedução óbvia, nossas escolhas são criações indiretas de Deus…
Parece fatalismo? Talvez, mas não é. As regras estão aí e nós convivemos com elas, dia a dia, lado a lado, e não nos damos conta. Ou preferimos não nos dar conta. As regras foram criadas por Deus e se auto-regulam, colocando em equilíbrio a criação. Se somos parte da criação, se também somos criaturas de Deus, lógico que sejamos também por elas regulados, equilibrados, estabilizados.
A única escolha legítima a que temos direito é amar ou não a Deus e sua criação. Esta é a nossa única escolha. Esta é a única opção a que o nosso livre-arbítrio tem acesso. Feita a escolha, no entanto, entram em ação as regras divinas, precisas, inequívocas, infalíveis, fazendo-nos entender a própria escolha e suas conseqüências. Nada mais…
Chame-O do que quiser, mas lembre-se de que Deus é. Ele não está. Ele apenas é. Não tente entender o que Ele é ou onde Ele está. Não tente vê-Lo. Apenas lembre-se de que Ele é e de que, para ele, não existe passado ou futuro, pois o tempo não existe.
Não O busque fora de si, não O busque nem mesmo dentro de si, pois Ele não está onde quer que seja. Ele é. E sendo, não há espaço que O acomode.
Não tente senti-Lo, tampouco, pois tudo o que você conseguirá será sentir a própria criação, pulsando mais forte em seu coração.
Ame, apenas. Ame a Deus em sua criação. Ame a Deus, amando a tudo e a todos. Ame a Deus em todas as coisas, inclusive no próximo e em si mesmo. Ame, pois isso será o mais próximo que você conseguirá chegar de Deus e sua essência.
São Paulo, 17 de janeiro de 2006.
