454 – O ALÉM E A SOBREVIVÊNCIA DO SER
Amigos comuns, entre os quais a duquesa de P…, trouxeram-me aqui para que me manifestasse por intermédio de Madame Hervy, sua amiga. Talvez vos cause admiração que meus espíritos familiares não me tenham avisado da fatalidade que pesava sobre o Titanic. Nada pode prevalecer contra o destino, quando irremediável, e eu deveria morrer sem que a nenhuma potência humana ou espiritual fosse possível retardar minha derradeira hora.
Saber que se vai morrer na plenitude da vida, na exuberância da força, pela ação dessas potências da Natureza, indomadas sob a aparência da submissão; morrer ao cintilar das estrelas impassíveis; morrer na calma fúnebre do mar gelado, em meio a uma solidão infinita; que angústia para a pobre criatura humana! E que apelo desvairado ela dirige a esse Deus, cujo poder repentinamente descobre! Oh, as preces daquela noite, os desprendimentos, as consciências a se iluminarem por súbitos relâmpagos e a fé a elevar-se nos corações por entre as harmonias do belo cântico: “Mais perto de ti, meu Deus!”
Agonia de centenas de seres, sim, mas agonia que para muitos era a aurora de um novo dia. Há, para os que viveram, pensaram, sofreram, como também para os que muito gozaram das falazes alegrias que a fortuna dispensa às suas vítimas, um alívio interior e como que um arroubo de esperança, ao reconhecerem que dentro de alguns instantes tudo estaria acabado. A alma freme na carne e a subjuga, malgrado os sobressaltos inconscientes da animalidade. E quantos dentre nós, proferindo as palavras do cântico “Mais perto de ti, meu Deus!”, sentiram-se bem perto do SER inefável que nos envolve com sua onipotente serenidade!
Pelo que me toca, vi, cheio de estranha doçura, aproximar-se a morte, sentindo-me amparado pelos meus amigos invisíveis, penetrado por um misterioso magnetismo que galvanizava os que morreriam e que tirava todo o horror à morte.
Os que morreram, sofreram pouco, menos do que os que sobreviveram. Os escolhidos já estavam a meio caminho do mundo espiritual, onde em tudo rebrilha uma vida etérea. A maior amargura não era deles, mas a dos que, presos à matéria, enchiam os barcos de socorro, que os levavam para continuarem nesse mundo a peregrinação da dor, de que ainda não haviam se libertado.
– William Stead –
(Pesquisador espiritualista que desencarnou no acidente do Titanic)
Texto <454><19/08/2003>
