Instituto de Pesquisas Projeciológicas e Bioenergéticas

902 – NOITE ESTRELADA

– Por Huberto Rohden –
 
Contemplei ao longe um grande ideal – e lá se foi o sossego de minh’alma.
Nunca mais estarei quite comigo mesmo…
Sempre atuará a gravitação do espírito…
Entrou-me no sangue da alma uma angústia cruel…
Sempre oscilará, irrequieta, a agulha magnética…
Sempre clamará o heliotropismo do meu ser…
Lavra-me no íntimo um incêndio voraz…
Feliz do homem profano – satisfeito consigo e com todo o mundo – esse infeliz!
Infeliz do iniciado – insatisfeito consigo mesmo – esse feliz!…
Aquele não conhece esfinges em pleno deserto – não conhece problemas…
Sorri-lhe o dia perene do seu plácido viver…
Mas o homem que pensa e ama – vive num ambiente de estranha agitação…
A sua noite é noite estrelada, sim – mas a treva é profunda e as estrelas altíssimas…
Todo pensar nos faz inquietos – todo querer nos abre Saaras imensos.
Todo viver oscila entre o Getsêmani e o Gólgota…
Todo amor agoniza entre os braços da cruz…
Entretanto, melhor é o inteligente sofrer – que o estúpido gozar…
Prefiro gemer numa noite estrelada – a sorrir num dia sem mistérios.
Prefiro sentir o que adivinho – a dizer o que ignoro…
Prefiro escutar a filosofia do silêncio fecundo – a ouvir a sociologia do ruído estéril…
Mais belos são os mundos que, incertos, entrevejo – que a Terra que meridianamente enxergo…
Creio mais no muito que ignoro – do que no pouco que sei…
Mais firme é a minha fé num universo ideal – do que nesse cosmos real…
Mais me aliciam ignotos horizontes – do que realidades palpáveis…
Bandeirante do além – não repousa meu espírito na querência do aquém…
Não me interessa o que sei – seduz-me o que ignoro…
Mesquinho é o passado, trivial o presente – como me encanta o futuro!
Contemplei ao longe um grande ideal – e lá se foi o sossego de minh’alma!
Nunca mais terei sossego de mim mesmo…
Nunca mais estarei quite comigo…
Devedor insolvente – enquanto viver…
Empolgou-me a noite estrelada do Infinito…
Rebelaram-se as potências dormentes…
Impossível um tratado de paz…
Adoro, ó noite estrelada, seus astros longínquos!
Por eles vivo… Luto… Sofro… Feliz…
 
(Texto extraído do livro “De Alma Para Alma” – do genial filósofo brasileiro Huberto Rohden – Editora Martin Claret.)
 
Obs.: Ver a coluna dedicada a Huberto Rohden em nosso site, na seção de Multimídia – www.ippb.org.br.

Texto <902><09/12/2008>